Dizem que baiano não nasce. Estreia.
Mas, na verdade, nenhum de nós nasce. Todos estreiam.
O Planeta Terra é o maior palco que existe.
E todos nós somos atores nessa peça.
Quando chegamos aqui, a cortina se abre.
Recebemos um nome. Um papel. Uma história.
E começamos a interpretar.
A atuação é tão natural… que esquecemos quem está por trás da máscara.
Desde cedo, aprendemos o jogo.
Um olhar de aprovação vale como aplauso.
Uma cara feia pesa como vaias.
E sem perceber… começamos a ajustar falas, esconder gestos, exagerar
comportamentos.
E assim o nosso personagem nasce.
Ele cresce. Ganha força.
Passa a falar por nós.
A reagir por nós.
A decidir antes mesmo que possamos pensar.
E a hipnose é tão profunda… que o ator esquece que está atuando.
E, nesse esquecimento, a vida se reduz a um ciclo de repetições.
Relacionamentos mudam, mas as cenas são as mesmas.
Empregos mudam, mas os conflitos se repetem.
É sempre o mesmo roteiro.
Só com cenários e figurinos diferentes.
Eu vivi isso na pele.
Enquanto acreditava ser apenas o personagem, parecia que a vida andava para
frente. Mas, por dentro, eu rodava em círculos.
Vieram as noites em claro.
A insônia que parecia não ter cura.
Veio o álcool. Primeiro como refúgio, depois como prisão.
Vieram a ansiedade, a angústia, o pânico.
E eu acreditava que era inevitável.
Mas não era.
Descobri que a raiz de tudo estava na identificação com o personagem.
Foi acreditar que eu era o personagem… que abriu as portas para os transtornos mentais.
E foi ao enxergar que eu não era ele… que encontrei a cura.
Foi libertador.
Porque o contraste é radical.
Quando vivemos como personagem, cada desafio parece ameaça.
Cada falha parece derrota.
Cada crítica parece um golpe.
Mas quando o ator desperta…
A mesma realidade se transforma.
O desafio vira convite.
A falha, aprendizado.
A crítica, espelho.
E nada se perde, porque tudo é vivido com consciência.
Eu também descobri que plenitude não é objetivo.
Ela não está em metas cumpridas.
Nem em vitórias acumuladas.
Plenitude é consequência.
Ela nasce quando estamos presentes. Mesmo quando nada sai como planejado.
Hoje, o meu personagem continua existindo.
Ele insiste em voltar.
Insiste em se passar por mim.
Mas agora eu o reconheço.
Ele pode até entrar em cena.
Mas já não tem mais o comando.
E só isso… já muda completamente a vida.
Porque não se trata de abandonar papéis.
Eu continuo com funções, responsabilidades, compromissos.
Mas agora atuo sabendo que é atuação.
E essa consciência transforma tudo.
O espetáculo continua.
Mas eu não esqueço mais quem está por trás da atuação.
O personagem busca vencer.
O ator busca ser.
Essa diferença muda tudo.
Foi dessa travessia que nasceu meu livro “Jogo da Vida”.
Ele é fruto direto da saída da prisão do personagem para a liberdade do ator.
E foi nesse despertar que eu compreendi o propósito mais profundo da vida:
Viver com liberdade.
Porque a plenitude não está no papel que representamos,
Mas na consciência de sermos quem interpreta.